Como foram os primeiros dois meses do João

Eu queria ter escrito um post sobre resguardo, um sobre a rotina do João e outro sobre alguma coisa que não lembro, mas mais de dois meses se passaram e eu resolvi juntar todos os temas num post só. A frase anterior resume muito bem o que foram esses dois meses: praticamente não deu pra fazer as coisas do jeito que eu planejei.

João é um bebê muito do bonzinho, no geral. Desde a primeira semana dorme muito bem à noite, e só acorda rapidinho umas 2, 3x pra mamar e trocar fralda, dormindo de novo em seguida. Poucas foram as noites em que dormi mal até agora. Mas quando dá baile, dá com força. De já ter vindo vizinho aqui assuntar se tava tudo bem.

Joao

Mas já volto nele. Primeiro quero falar do meu resguardo, que foi médio tranquilo. Passei os primeiros 10 dias muito de repouso, apesar de estar me sentindo ótima (pra dizer bem a verdade, 3 dias depois do meu parto eu me sentia zerada). O único incômodo foi o sangramento, que durou quase 30 dias. Na primeira revisão com a médica (10 dias) ela me deu alta pra quase tudo, menos sexo e piscina.

Tive companhia da minha mãe por quase duas semanas, depois da minha sogra por outra semana. Depois optei por ficar sozinha. Eu nunca fiquei à vontade com visitas muito tempo em casa, e estava doida pra ficar a sós com o Décio e o João, experimentar isso de ter uma família. Hoje vejo que foi um erro, porque é MUITO desgastante cuidar de um recém-nascido, por mai bonzinho que ele seja. E também porque a gente se sente muito desamparada, e não adianta querer ser durona nessas horas.

Com essa licença paternidade ridícula de 5 dias que a gente tem, acabamos ficando só eu e João. Exausta, vendo as tarefas por fazer aumentando e atrasando, por mais ajuda que Décio me desse. E eu percebi que à medida em que a gente vai ficando mais recuperada fisicamente, as pessoas próximas tendem a esquecer que você ainda está de resguardo e deveria descansar, e acabam cobrando coisas que você ainda não está 100% pra fazer.

Pra mim, o mais difícil da quarentena foi lidar com o baby blues. Durante umas 3 semanas, me pegou forte essa parada, e foi horrível. Eu chorava praticamente o dia inteiro, por nada. É muito hormônio, gente. Como isso endoida a gente. Quero fazer um post só pra falar de baby blues, mas adianto que ainda sinto ele por aqui. Dia desses até pensei em pedir uma receita de anti-depressivo pra minha médica, mas comecei com uns homeopáticos e reforcei as orações, o que tem me ajudado e me fez desistir da ideia do remédio.

Logo que o João chegou, já planilhei a vida do bichinho.¯\_(ツ)_/¯

Por planilhar eu digo tentar manter ritmo e coerência na rotina dele, mas sem forçar muito. Uma coisa interessante, que eu recomendo que todo mundo faça, é observar os primeiros dias, anotando tudo: hora e quanto de tempo mamou, que horas dormiu, que horas acordou, quanto tempo dormiu, que horas trocou fralda…

Isso faz a gente começar a entender a personalidade dos pitocos, bem como as “preferências” deles, e meio que seguir um ritmo mais natural. Nessas observações, por exemplo, percebi que João mama pouco tempo, mas muitas vezes ao dia (não passa mais que duas horas sem mamar). Deu pra sacar também os horários em que o sono é mais leve ou mais pesado, que horas ele se sente mais confortável pro banho de sol…

Nossa decisão foi criar o João do jeito mais sem frescura possível, e quisemos logo sair com ele de casa. A primeira saída foi no 13º dia, e saímos sempre, pra todo lado. Ele nunca “reclamou” de ambientes barulhentos, já fomos com ele até num casamento com banda tocando. É engraçado, mas barulho de secador de cabelo e aspirador de pó o acalmam muito.

Sobre isso de sair, tem que desapegar pra conseguir. Já aguentei baile do Jojoco no meio de almoço com amigos, vivo trocando a fralda dele no banco do carro mesmo, já larguei compras no meio da esteira pra dar de mamar… Não me importo nem um pouco com essas coisas, na verdade até acho divertido, pois acrescenta alguma emoção nos passeios, hehe. Fora que ele acaba virando meu companheirinho, e participa da minha rotina, seja pendurado no sling enquanto rego o jardim ou sassaricando pra cima e pra baixo.

O que faço é tentar agir preventivamente: quando tá dando o limite de tempo que ele fica sem mamar, eu paro, procuro um lugarzinho tranquilo, e dou o peito. Mesmo que eu fique mais tempo na rua, evito fazer muitas paradas, pois isso também o irrita. E o principal: bebê não é fantoche. Tem personalidade e entende muito mais do que a gente imagina. Sempre conto pra ele como será o nosso dia, peço opinião (que ele “responde” do jeitinho dele), conto cada passo que a gente vai dar, pra que ele saiba e se sinta seguro.

Por mais que eu não saiba que surpresas cada dia me trará, tento manter a coerência, como eu disse. É uma vida muito diferente da que eu tinha, não posso mais simplesmente querer fazer uma coisa e ir lá fazer. Se quero ir num determinado lugar, preciso pensar em tudo, ver como isso afeta o dia do João, do Décio, discutir, negociar, dar satisfação, preparar bolsinha, conferir o tempo pra ver que roupa botar nele e por aí vai. E quer saber? Eu tô gostando muito.

Viver em família, com marido e filho tem sido uma experiência feliz, que tem anulado alguns aspectos egoístas da minha personalidade. Eu valorizo muito a liberdade, mas tenho aprendido a pensá-la de maneira diferente, afinal a minha liberdade não pode simplesmente deixar de levar em consideração o espaço de cada um aqui dentro de casa. É um senso de comunidade que tem me ensinado muitas lições.

E tem um lado meio sombrio, que ninguém fala, mas que é importante comentar. Não sei se pra todas é assim, mas existe também em mim algum ressentimento pelas coisas que a maternidade me faz perder. Parece bobo, mas às vezes eu sofro por ficar 4 dias sem lavar o cabelo, ou por estar há mais de dois meses sem fazer a unha. Por mais que eu saiba que não é prioridade entrar em forma agora, fico triste quando vejo que a minha barriga ainda está flácida, grande e cheia de estria. Ninguém se deu conta disso, mas tudo que eu queria às vezes era um dia de vale-spa, acompanhado de alguém que segure o João pra mim.

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Existe algo de solitário nessa fase, mesmo que você tenha o seu bebê no colo o dia inteiro. Às vezes dá uma raivinha daquela pessoa que prometeu uma visita e ainda não apareceu, ou das amigas mais próximas que você queria que fossem mais presentes. Ou do seu marido, que podia ser um pouquinho mais sensível e contribuir para melhorar sua autoestima (que fica lá no centro da Terra, de tão baixa). Eu detesto ter que pedir as coisas, e sempre me pego amargurada (haha) porque fulano não se tocou e me ofereceu um ombro amigo antes mesmo de eu pedir.

Portanto, querida leitora que ainda está grávida, certifique-se de que será cuidada. Peça ajuda (não seja cabeçuda que nem eu), reclame de falta de carinho e atenção, porque é tudo que você precisa. E aproveite o seu momento com seu bebê, mesmo que às vezes você queira empurrá-lo pra debaixo da cama.

Porque existe, afinal de contas, uma grande recompensa nisso tudo. Tem sido delicioso observar como João evolui a olhos vistos. As roupinhas de recém-nascido já não servem mais, as feições mudaram muito de quando ele nasceu pra cá, e aos poucos dá pra ver que o bichinho já tem uma personalidade e carisma próprios, marcantes. A gente fica ansiando pela próxima fase do desenvolvimento, enquanto choraminga a que passou. E ah, a saudade da gravidez vem mais cedo do que você imagina.

Pra terminar, acho que agora entrei numa nova fase. Metade da licença-maternidade se foi, e começa a brotar uma angústia/preocupação sobre como será a volta ao trabalho em contraponto aos cuidados com ele. Voltei a pensar na minha vida de forma mais prática, e tenho tentado encaixar algum tempo pra mim na rotina: estudar, ler, pensar nos meus projetos. Tudo ainda sem cobrança, priorizando os momentos com ele e com o pai dele.

A Laura Gutman diz que o natural é que a mulher meio que “se entregue” nos primeiros dois anos, mas todo mundo sabe que com a nossa dinâmica de sociedade, é uma meta muito difícil de alcançar. O jeito é se adaptar. O que eu tenho em mente é que o desenvolvimento saudável dele é a prioridade. Não preciso ficar 24h à mercê dele, sem pensar em nada ou fazer nada meu, mas se ele precisar eu paro tudo que estou fazendo pra cuidar. Enfim, cada um acha o seu jeito.

Até a próxima história pra contar!