Sobre mães, filhos pequenos e espaços coletivos

“É engraçado que num lugar como uma igreja, as pessoas façam cara feia pra criança, né?”. Alguém levantou esse ponto numa discussão da qual eu participava no domingo, e eu fiquei pensando nisso, e pensando na minha condição atual, e na minha condição passada. Eu já fui uma dessas pessoas que faz cara feia pra menino chorando em shopping, ou qualquer lugar público, e vi a situação se inverter a partir do momento em que fui mãe. E meu Deus, como a gente julga.

João nem é desses que dá trabalho assim, na maior parte das vezes que saio com ele, ele se comporta bem, não é de ficar chorando, interage com as pessoas, fica razoavelmente bem em colos estranhos longe de mim. Mas é um bebê, e chora. E logo vai ser uma criança, vai querer brincar, e vai ser livre de toda essa preocupação paranóica dos adultos com o decoro.

Mas mesmo sendo tão bonzinho, eu quase sempre estou deixando de participar de atividades sociais porque sei que ele não será bem-vindo. Eu não quero ser sem noção, e eu sei que muita coisa não dá mesmo pra fazer, tipo ir num karaoke fechado, com som mega alto. Ou um encontro espiritual em que energias diversas se condensam, e podem afetá-lo.

Eu falo de lugares e situações em que ele poderia estar comigo normalmente: um curso rápido, uma palestra, alguns passeios, um grupo de meditação ou uma aula de yoga, pilates etc. Como sociedade, percebo que nos fechamos à presença da criança, como se ela fosse um problema, ou empecilho à ordem. O nosso conceito de ordem se tornou algo tão silencioso e esterilizado, que a criança, vista em sociedades mais antigas e tribais como dádiva, se tornou um crachá enorme de “você não é bem-vindo aqui”. O individualismo é tanto, que em vez de respirar fundo e ser parte do processo, nos tornamos o processo em si, impassíveis de interferência.

Isso é bem ruim, porque torna a já árdua tarefa de ser mãe ainda mais solitária, e em muitos casos triste. Dia desses, fui a uma aula experimental de yoga, num lugar em que tinham me dito que criança era bem-vinda. No primeiro resmungo do João, me olharam com uma cara tão feia, e eu fiquei tão sem graça, que saí, mesmo a professora tendo tentado contornar a situação.

Eu tenho estado numa fase de querer muito ficar fora de casa, socializar, ser útil. E muitas vezes, talvez até sem maldade mesmo, as pessoas me dispensam: “ah, você já tem o João, não precisamos de você, pode deixar”. Eu confesso que me sinto mal. Os piores dias pra gente são sempre os que tenho que ficar em casa, dispensada. Podem me dizer que eu tenho que me dedicar ao João, que eu não tenho que me preocupar com outras coisas, mas olha, eu me dedico a ele. Muito. Dias inteiros, e madrugadas inteiras, porque sou eu que acordo pra dar de mamar. Só que eu preciso cuidar de mim de alguma forma, me sentir viva, útil, para ficar bem pra cuidar dele.

No domingo mesmo, depois de levantar essa discussão sobre a ocupação dos espaços coletivos pelas mulheres com filhos pequenos, fui a um outro evento, em que crianças eram bem-vindas. Foi um trabalho de conexão com o feminino, tinha um quê de místico, um quê de científico, e foi bastante interessante ver como tudo fluiu.

Tinha o João de bebê, e outras crianças de faixas etárias diferentes, sendo crianças, se comportando da maneira como se espera delas: brincando, fazendo barulho, demandando, interrompendo. Foi um caos! Mas foi um caos interessante e belo, porque a programação funcionou como deveria ser. As atividades foram feitas, e com muito carinho e compreensão de todos, tudo deu certo.

João se divertindo com o tambor enquanto tia Iaiá explicava sobre a agenda lunar.
João se divertindo com o tambor enquanto tia Iaiá explicava sobre a agenda lunar.

João foi pro colo de um, de outro, brincou com o material de artesanato, bateu tambor, e só deu trabalho pra valer quando se sentiu muito cansado, que pra hora já era esperado por ele ter a rotina já bem definida. Mas assim mesmo, sem crise. Quando ele deu os sinais, pedi licença, fui embora. A propósito, voltei pra casa feliz, animada por me sentir inclusa, fazendo parte de algo.

Por último me lembro de um encontro meu da Teia, em que eu toda preocupada do João atrapalhar a concentração (a gente acaba ficando meio paranóica nisso de “meu filho atrapalha sua vida”), tentando fazê-lo se calar, ouvi de uma dirigente que o barulhinho dele eram os anjos se manifestando na nossa reunião. Era assim que as crianças eram vistas antigamente, é assim que elas deveriam voltar a serem vistas. Deixemos os anjos conversar, e aceitemos.