Relato de parto do João Checho

Eu perdi a conta de quantas vezes comecei a escrever esse texto e acabei apagando depois. É engraçado, porque de início eu não queria escrever por estar sensível demais. Cada lembrança de algum momento do parto me fazia cair em prantos. Agora já não me sinto tão sensível, mas sinto que algumas memórias já não são mais tão vívidas.

Então chegou a hora de enfrentar o teclado, antes que essas memórias se percam. E eu não quero deixar que essas memórias morram comigo, porque hoje sei o quanto é importante compartilhar um relato de parto. Dediquei as minhas duas últimas semanas antes do parto a ler relatos, e essas leituras me ajudaram imensamente. Espero que meu relato possa ajudar alguém, da mesma maneira que vários outros relatos disponíveis me ajudaram.

Antes de entrar no relato de fato, é importante frisar que esse vai ser um textão, a la Mundo Gump, ou seja, bota textão nisso. Vou dividir em subtítulos, para não ficar tão pesada a leitura.

Ops, a bolsa estourou

O dia era 20/05, 10 dias antes da minha data provável de parto. Era uma quarta, meu companheiro chegou em casa e cumprimos a nossa rotininha pacata. Eu fui dormir, sem perceber nada de diferente. Aliás, minto. Nessa noite, sem querer eu retirei o cordão de lã que circulava minha barriga, e que havia sido colocado na minha benção do ventre na Teia.

Esse cordão em tese, só poderia ser cortado quando eu entrasse em trabalho de parto, mas na pressa de tirar a roupa ele saiu. Na hora fiquei tranquila e pensei comigo mesma que quando acordasse, procuraria as minhas dirigentes para obter orientação. Nem fiquei com medo de isso antecipar meu parto de alguma maneira. O velho ceticismo de sempre.

Acordei às 00h30 com uma sensação de um corrimento intenso, e uma poça de água na cama, mas eu fiquei em dúvida se era ou não bolsa rompida. Eu fiquei com a orientação da minha médica de que o líquido amniótico tem cheiro de água sanitária, e meu corrimento não tinha. Assim mesmo chamei o Décio, dizendo que achava que minha bolsa tinha rompido.

Fui ao banheiro, e senti descer mais um monte de líquido, e nessa hora eu soube que era mesmo a bolsa estourada. Liguei para a doula, Rosa, que me orientou a tentar descansar, e também a falar com a minha médica. Mandei mensagem para a Dra. Caren, que também me orientou a tentar descansar e entrar em contato pela manhã, ou na madrugada mesmo, caso sentisse vontade ou algo mais acontecesse.

Como eu não tinha tido nenhuma contração, consegui dormir a maior parte da noite. O incômodo era apenas o do líquido saindo. É muito, muito mesmo. E o meu foi saindo aos poucos, então toda hora eu acordava com aquela sensação de cachoeira descendo. Pra vocês terem uma ideia, forrei a cama embaixo do meu quadril com uma toalha, e ela amanheceu toda encharcada.

Acordei bem cedo no dia 21/05, nada de contração, e as cachoeiras só descendo. Falei com a minha médica, que me orientou a procurar um pronto-socorro e fazer uma ecografia, para medir a quantidade de líquido amniótico, e passar o resultado pra que ela me desse mais orientações. Falei então com a doula, que se prontificou a me acompanhar no hospital, e lá fomos nós.

Fui ao Hospital Santa Helena, no final da Asa Norte, e chegando lá fui informada de que o hospital estava sem obstetra, e não teriam como me atender (??? – depois reclamam do SUS). Minha segunda alternativa era a Maternidade Brasília, e para lá nos dirigimos, pois. É aí que começa a próxima parte desse texto.

O dia em que um cesarista tentou me manipular

Chegando na Maternidade Brasília, passei pela triagem, e pelo momento estranho nº 1 da manhã: as enfermeiras que me atenderam estranharam o pedido de uma ecografia pela médica, e me disseram que eu teria que fazer outro exame, um toconãoseioquelá, que mede o batimento do bebê e as contrações.

Fiquei um tempão esperando pra fazer o exame, que a Dra. Caren depois me disse que seria inútil no meu caso. Exame feito, mais um tempão pra ser atendida pelo médico. Momento estranho nº 2 da manhã, esse sim estranho de verdade. O médico me interrogou, e de cara já me solta um:

-“Sua bolsa estourou e a sua médica te mandou dormir?”, com aquela cara de “sua médica é incompetente pra caralho”. Nessas horas agradeci por ter a doula e meu companheiro ao meu lado, porque sozinha eu sou muito mais suscetível à pressão. Todas as vezes que tentaram me encantuar nesse processo, a doula me defendeu magnificamente.

Explicamos o porque da orientação da médica, e ele me veio com um discurso terrorista de que com 6h de bolsa rota eu já teria que fazer um parto de emergência (cesáreo, lógico) e me solta mais uma pergunta com cara de desdém: – “Você quer parto vaginal?” (ênfase na cara de nojo ao pronunciar parto vaginal). Respondi que sim. Última pergunta do médico foi quem era a minha médica. Quando pronuncei o nome Caren Cupertino, parecia que eu tinha falado um palavrão. A resposta dele foi um “ah, tá”, que poderia ser complementado, pela expressão no rosto dele com um “tá explicado”.

Pra fechar com chave de ouro esse atendimento maravilhoso, só que não, explicamos o porque da ecografia, e eu comentei que assim que tivesse os resultados passaria para a médica, receberia as orientações e iria para a casa esperar pelos próximos passos. O último comentário dele foi um “se você sair daqui, né?”. AFF.

Passamos o restante da manhã no hospital, invadindo a hora de almoço, esperando pra fazer a bendita ecografia, e esperando resultados de exame de sangue e urina, que eu também não precisava ter feito. Resultados em mãos, fotografei e mandei pelo whatsapp pra Dra. Caren e era isso mesmo: a bolsa estava rompida, e eu ainda não tinha tido uma bendita contração.

Ela me explicou que o máximo de tempo recomendado para a bolsa rota era de 18h (6h meu koo, senhor cesarista), mais do que isso eu precisaria tomar antibiótico, e era algo que se fosse prolongado, poderia vir a causar sofrimento fetal. Nossa alternativa era induzir, mas não havia tempo para induzir com acupuntura, ia no remédio mesmo. Tinha chegado a hora: íamos almoçar, passar em casa pra tomar um banho e ir pra internação.

A internação

Deixamos a Rosa em casa pra descansar, passamos num restaurante pra eu matar meu último desejo antes do parto (um petit gateau), e fomos para casa. As malas da maternidade já estavam prontas, foi só tomar um banho, lavar o cabelo, nos despedir dos gatinhos e sair de novo.

Chegamos ao Hospital Santa Helena por volta de 16h e pouco do dia 21/05, e PQP, QUE HOSPITAL LOTADO DO CARAMBA! Soubemos que lá era o único hospital que estava aceitando convênio da PM, e na boa, a sala do PS tava 10 mil vezes pior que a recepção do HRAN.

Por ser um caso de prioridade, fui encaminhada a um box do PS, um cubículo que mal cabia a minha maca e mais um. Nesse espaço ficamos eu, a doula, a médica (as duas chegaram um pouco depois de mim) e o Décio. Iniciamos a medicação: antibiótico e uma dose mais fraca de Cytotec (eu acho que foi esse mesmo), para virem as contrações.

Nesse meio tempo, Décio foi cuidar da burocracia da internação. A previsão de ter um quarto era só no dia seguinte pela manhã (oi?), e eu tava ali, correndo o risco de parir no cubículo do pronto-socorro mesmo, tudo lotado. Estava horrível, e ninguém estava se sentindo à vontade.

Feliz ou infelizmente, tive um problema com meu convênio, que negou a minha internação. Já havíamos cogitado a mudança de hospital, e esse foi o sinal de que a gente devia fazer o que queria. Decidimos então ir para o Hospital Santa Lúcia, no final da Asa Sul.

Aqui eu já não tenho mais certeza da hora, mas ali pelas 21h do dia 21/05 demos entrada no Hospital Santa Lúcia. Pareceu o melhor a se fazer, já que era o hospital de confiança da Dra. Caren, e havia vaga nos quartos. Desde a recepção, o tratamento foi outro, sério, nunca fui tão bem tratada num hospital antes.

Quando chegamos ao quarto eu já estava com leves contrações, com pouca dor. Nos instalamos todos, eu recebi mais uma dose de antibiótico e do cytotec. As contrações passaram a vir com mais frequência, mas ainda sem ritmo. Foi aí que o bicho começou a pegar de verdade.

Madrugada sofrida

Começou como uma cólica bem de leve. E então foram ficando mais fortes. Eu não cheguei a pesquisar a respeito, mas ouvi muita gente falar (inclusive a própria médica, eu acho, não tenho certeza) que remédios para induzir o parto tornam a dor mais intensa.

A partir do momento em que a coisa ficou dolorida de verdade, eu perdi a noção da hora. Ficaram comigo no quarto o pai do João e a Rosa, minha doula. Eu tentei descansar, mas a dor já era muito intensa pra isso. As contrações vinham, cada vez mais doloridas, mas ainda sem ritmo.

A dor era tão intensa que a vontade que eu tinha era de me jogar no chão (coisa que eu fiz algumas vezes). Tem mulher que quer viver isso sozinha, e não aguentem que encostem nela. Eu queria a Rosa e o Décio perto de mim, me dando a mão, me abraçando, me segurando.

Todos os truques que eu tinha aprendido e lido a respeito – entrar debaixo da água quente, ficar de quatro, agachar, deitar de lado, nada aliviava muita coisa a dor. A única coisa que me fazia sentir um pouco melhor, era me jogar e me arrastar no chão. O engraçado dessa dor, é que ela passa no momento em que a contração acaba. Parece que nada aconteceu.

Enfim, a noite corria, a dor das contrações se tornava mais intensa, mas a dilatação não progredia. Depois de não sei quanto tempo sentindo dor, eu só estava com 2 cm de dilatação. Eu já começava a entregar os pontos e pedi anestesia. Acho que a médica e a doula tentaram me enrolar ainda um tempo, pra ver se o trabalho avançava sem precisarmos da anestesia, mas não deu.

Não sei em que determinado momento da noite, eu conversei com a doula sobre possíveis bloqueios para o parto, e comentei que eu sempre tive pra mim que precisar de uma cesárea me faria uma mulher fracassada, não importa quem me dissesse o contrário. E ali estava eu, rumo ao fracasso, prostrada em dor, implorando por uma anestesia.

Foi o que fiz. Lembro de estar sentada sozinha, debaixo do chuveiro quente, quando a médica entrou no quarto. A chamei e implorei por uma anestesia, eu não estava mais aguentando aquela dor. Com o João o tempo todo tudo esteve bem, os batimentos estavam normais, e não havia indício de sofrimento fetal.

Seguimos para o centro cirúrgico, eu me sentindo como alguém que caminha para o abate, um abate triste, o fim do meu sonho de ter um parto normal. Não sei porque, mas pra mim, pelo fato de precisar de anestésico, a esperança já estava perdida. Eu ia acabar numa cesárea, e esperava apenas que me dissessem isso.

Parto, dor, redenção e renascimento

A cena da preparação do centro cirúrgico e da anestesia peridural em minha memória soa como um momento fúnebre. O olhar de todos para mim era de cansaço e desalento. Todo o ritual de preparação da anestesia torna ainda mais dramática a coisa toda. Todas aquelas recomendações de “permaneça imóvel, com as costas arqueadas”, enfermeira me segurando e todo o meu emocional me levavam a crer que aquilo não terminaria bem.

Meu companheiro passou mal e voltou pro quarto pra deitar um pouco. Começamos agora a indução com ocitocina (cada indutor age de uma maneira diferente). Uma coceira terrível tomou conta do meu corpo inteiro, efeito colateral da anestesia. As contrações não doíam mais, mas era possível sentí-las, a barriga endurecendo, mas ainda sem ritmo.

Os olhares continuavam cansados e eu só estava esperando o momento em que alguém me diria que eu seria preparada para a cesárea. E assim o tempo passou, não sei precisar quanto tempo. Sem dor, consegui relaxar um pouco. Até que o efeito da anestesia pareceu que estava passando.

As minhas lembranças a partir desse momento são confusas, e eu posso ter errado a ordem de algum acontecimento. Me lembro da Rosa e da Dra. Caren indo conversar num canto, e de uma delas ter dito que chamaria o Décio no quarto, mas ele veio antes de ser chamado.

Mediram minha dilatação, 9 cm. A anestesia já passava, e uma leve dor acompanhava as contrações. E nesse momento, eu só me lembro da médica ter me dito que faria não sei lá o que, e veio a dor. Uma dor que eu não esperava e que me fez urrar. Depois eu soube que foi uma manobra para abrir (ou afinar, não sei) o colo do útero e induzir o parto.

Quando essa dor veio, a sensação que eu tive foi a de que o efeito da anestesia tinha passado por completo. As contrações doíam de novo, agora com força total. Nesse momento, fiquei a sós com a doula e tivemos a conversa mais honesta em todo o meu trabalho de parto. Relembramos a conversa anterior, no quarto e eu caí em prantos.

A minha ficha tinha caído. Eu era a pessoa mais arrogante do mundo, tinha sido a pessoa mais arrogante do mundo nos últimos nove meses. Eu quis ser maior que o destino, que tudo, quis ser imortal e tinha colocado a forma como ia parir acima de tudo, até mesmo da vida que eu carregava em mim. Quando me dei conta disso, eu desmoronei. Eu não era tão forte assim, e eu não conseguia controlar tudo. Ou eu deixava o meu destino me guiar ou estaria pra sempre presa na minha própria arrogância e ignorância. Foi como ser obrigada a calçar as sandálias da humildade, e aceitar que, normal ou cirurgicamente, era o nascimento do João que estava em jogo.

E magicamente, nesse momento, enquanto ouvia as palavras da Rosa, e enquanto me acabava em lágrimas, tudo se reverteu. Eu fui para a banqueta, e a cesárea que eu já tinha como certa, se distanciou de mim. Eu estava no expulsivo do meu parto. Normal. Deus tinha me dado outra chance, apesar de tudo. Mas a dor era forte demais, e eu estava deixando ela me dominar.

Eu nunca vou conseguir descrever o que é a dor do parto. Eu nem sequer consigo me lembrar de como ela é agora, enquanto escrevo esse relato. Mesmo durando apenas o tempo da contração, ela é intensa demais, e a todo momento eu achava que ia desmaiar, ou morrer.

Tive dificuldade de me concentrar, e estava botando a força no lugar errado, no pescoço, em vez de lá embaixo. Eu novamente implorava por anestesia, mas dessa vez ninguém cederia. Segundo a médica, uma anestesia nesse instante poria tudo a perder, pois eu perderia o controle sobre o meu parto, e poderíamos novamente voltar ao limbo da cesárea.

E então, na sequência, aconteceram as duas coisas mais significativas do meu parto. A primeira delas eu só me lembrei ao assistir o vídeo (o parto foi filmado, mas está sendo compartilhado apenas com os amigos mais íntimos), que foi uma frase dita pela minha doula, e da qual eu vou me lembrar todos os dias da minha vida: “a pessoa que mais acredita em você está aí dentro”. Acho que só eu sei o quanto isso foi forte. Foi o ponto de virada para que eu parasse de focar na dor, e focasse no João, no nascimento dele. Era por ele que eu estava passando por aquilo.

A partir desse momento, eu esqueci onde eu estava e quem eu era. Deixei o grito que estava preso em mim se liberar. E que grito. Acho que o hospital inteiro ouviu, rs. Nesse momento, o João coroou. Eu entrei no tal do círculo de fogo. Parecia que eu ia me arrebentar, que ia sair desse parto toda lacerada, senão morta. E veio o segundo momento mais significativo: a Dra. Caren me falou pra passar a mão e sentir a cabeça do João saindo.

“Ele está aqui!”. Não sei porque cargas d’água, nesse momento eu lembrei de todas as histórias mal sucedidas de parto que eu tinha lido, e tive medo, mas dessa vez não mais por mim, por ele. Foi a minha redenção, eu soube nesse instante que a vida dele era mais importante que a minha própria. Foi quando me doei de coração, e entreguei a minha vida pra ele. Era mais importante que ele saísse dali, do que qualquer consequência pra mim.

Naquele instante eu renasci. Forcei. Empurrei com todos os meus músculos, com todo o meu pulmão. E João, como num passe de mágica, escorregou, que nem um quiabinho pra fora do meu corpo. Às 7h45 do dia 22/05, com 47 cm e 2.750 kg. E imediatamente veio pro meu colo. Ele tinha nascido, de parto normal. Todos os meus pecados haviam sido perdoados. Éramos nós, eu, ele, o pai dele. Mais uma vez a ficha caiu. A ficha do amor incondicional, aquele que dizem que só as mães sentem. Toda a dor do mundo tinha passado (literalmente), e só tinha sobrado o amor.

Alguma coisa sobre o pós-parto

Algo em torno de 20 minutos depois do parto, a placenta saiu. Foi mais incômodo do que dolorido. Optamos por guardá-la, e será utilizada para fertilizar uma árvore que plantaremos para o João, na casa dos seus avós paternos. Toda a dor tinha cessado quase que instantaneamente, e eu apesar de muito cansada, estava bem.

Eu tive apenas um “raladinho” no períneo, segundo a Dra. Caren, e não precisei levar pontos. Engraçado porque quando estava sentindo a dor, eu achei que tinha me rasgado inteira. João ficou nos meus braços até o cordão parar de pulsar sozinho, e só então foi cortado. Ofereci o peito, mas não me lembro se ele mamou imediatamente.

Ele foi então levado para alguns testes, e em nenhum desses momentos o pai dele saiu de perto. Aliás, tudo no Hospital Santa Helena foi nota 10, de acordo com as recomendações de um tratamento humanizado. Nada foi feito sem nosso consentimento, e João nem chegou perto de um berçário: o tempo todo ele esteve comigo ou com o pai. As pediatras e enfermeiras foram enfáticas quanto ao aleitamento materno, e me ajudaram em tudo que puderam. Sem enganações, fórmulas ou terrorismo.

Terminados os procedimentos, fui para a sala de recuperação, e lá mesmo já parecia nova em folha: sentei na maca, mandei mensagem pelo celular. Fui em seguida para o quarto e depois de um bom descanso e banho, no fim do dia já tinha sido liberada pra levantar e dar uma andadinha pelo hospital. À noite recebemos visitas das pessoas que autorizamos no hospital. A alta seria dada no dia seguinte, 23, pela manhã.

A importância de quem te acompanha, ou #SomosTodasCarenCupertino

Por fim, eu não poderia deixar de contar esse relato sem dar os créditos às minhas médica e doula. Começando por esta última, eu não teria sido capaz de parir sem o suporte emocional da Rosa. Ela é uma pessoa apaixonada pelo que faz, e isso se traduz numa prestatividade infinita.

A Rosa nunca deixou de me responder uma mensagem, ou atender um telefonema. Passou 90% dessas 31 horas entre o estouro da bolsa, e o nascimento do João comigo, ignorando as suas próprias necessidades, já que ela não necessariamente precisaria estar comigo o tempo todo. As palavras dela foram fortes, porém ditas com uma doçura e compaixão imensas. Eu diria que despertou o que era necessário em mim pra eu conseguir passar por esse momento.

Eu vejo que muitas pessoas consideram a figura da doula como uma frescura, um modismo. Talvez eu também tenha pensado assim em algum momento, mas hoje eu vejo o quanto a presença delas é importante, especialmente para pais inexperientes, e para quem quer passar pela experiência do parto natural.

Pra falar da Dra. Caren, me aproprio de uma frase dita por ela mesma: “toda mulher precisa ter a chance de parir”. E é assim que ela trabalha, oferecendo chance a várias mulheres. A julgar pelas reações que vi de médicos e enfermeiras até o momento do parto, Caren Cupertino é um nome que incomoda.

Talvez porque ela peita o sistema, e se nega a ir na maré da indústria de cesarianas, sacrificando seu próprio tempo pessoal. Talvez porque ela não coisifique as mulheres, e não as envolva numa redoma de fragilidade que acaba por tirar delas o empoderamento sobre o próprio corpo, e incutir um medo da dor que desestruture o que nos é mais sagrado: nosso instinto feminino.

E como uma pessoa que está contra o sistema, a minha médica está sujeita às armadilhas caluniosas que se propagam irresponsavelmente. Porém, mesmo que a mentira às vezes seja mais forte que a verdade, esta não pode deixar de ser dita e repetida. O cuidado e atenção que a Dra. Caren comigo, permanecendo presente ao meu lado por praticamente 12 horas, e insistindo no meu poder de ter um parto normal quando tantos outros já teriam desistido e partido pra uma cesárea pra encurtar o expediente, merece ser exaltado.

E eu agradeço por tudo. Pela indução, pelas manobras, até mesmo por ela ter me negado a segunda dose de anestesia. Hoje quando penso, revejo e me lembro do meu parto, percebo o quanto fui forte. Mais do que à minha vontade, eu devo isso às duas profissionais que me acompanharam. E também a nove meses de leituras, estudo e informação que me embasaram pra ser forte quando as opiniões atravessadas e a descrença no que é natural e orgânico vinha à tona.

Assim eu consegui. Agora estou aqui, com meu piolhinho no colo, sentindo um baita orgulho. A maternidade agora me empurra novos desafios, alegrias e contratempos. Estou aproveitando os últimos dias de resguardo pra me despedir desse período tão especial que foi a gravidez e parto. Tenho muita coisa pra falar, e o assunto continua no blog. Gratidão a quem acompanhou, continuem por aqui. :)

Ah sim, eu faria tudo de novo. NORMALmente.