Sobre esses últimos 4 meses

Ontem João fez 4 meses. Foi um dos dias mais difíceis com ele, dos muitos que temos tido nessas últimas semanas. E por mais que eu sinta alguma culpa em admitir isso (a realidade construída das mães perfeitas não admite que a gente admita os problemas sem a tal culpa), eu quis falar a respeito. Na verdade eu preciso falar sobre isso.

Não que eu esteja infeliz. Não mesmo. Eu continuo tendo a certeza absoluta que ter um filho foi a melhor coisa que me aconteceu, o impulso que eu precisava pra mudar radicalmente de vida, e buscar minha felicidade. Mas tenho passado dias complicados.

Primeiro, porque João tem chorado muito, e quer colo o dia inteiro. O dia inteiro mesmo. Eu tiro ele do colo e ele chora. Aquele choro que entra no tímpano, infiltra no cérebro, dói lá no hipotálamo. Irrita, faz a gente perder o controle. Faz os vizinhos virem perguntar se tá tudo bem, e te deixar morta de raiva e constrangimento. O calor que tem feito nos últimos dias potencializa tudo, e é fermento pra irritação.

O fato é que pesquisando e conversando, descobri que o João está vivendo um desses estirões de crescimento, que aparentemente é o que dura mais tempo e é o mais chato. O corpinho dele está se preparando pro nascimento dos primeiros dentinhos, ele toma a segunda doce da vacina penta (que dizem que dá uma baita de uma reação).

Tínhamos a consulta de 4 meses ontem, pela qual eu estava bastante ansiosa, mas com a médica de atestado, ficou pra semana que vem. Eu confesso que fiquei frustrada, pois estava contando com ajuda da pediatra pra ajudar nessas respostas pro comportamento do pequeno nos últimos dias. Paciência.

Mas mesmo com toda essa irritação e choradeira, não é o João o problema. Sou eu. Isso de encontrar a própria sombra anda forte como nunca. Eu confesso que tenho buscado muito a ajuda das pessoas, mas no fim das contas, é um processo solitário. E, muitas vezes, quem está perto mais atrapalha do que ajuda (com exceção do meu marido, que do jeitinho dele sempre tenta me ajudar).

Tentei conversar com algumas pessoas mais próximas e a gente sempre acaba no velho “é manha”, “deixa chorar” ou “ficou acostumado com colo”. Não sei se porque a maior parte dessas pessoas não passa um dia inteiro comigo, mas ninguém leva a sério, ninguém acredita que quando eu desabafo, é porque estou em frangalhos. Isso me magoa, e por conta disso eu tenho me fechado no meu casulo.

Por outro lado, tenho conseguido apoio num grupo que criei no Facebook, o Mães in Off (se alguma mãe quiser entrar me avisa!). Lá me sinto compreendida, ouço bons conselhos, recebo ajuda de verdade. E é essa ajuda, que poucos tem a sensibilidade de perceber, e doar, que tem tornado esses últimos dias um pouco menos árduos.

Tem pegado muito também a escolha que eu fiz, de deixar um emprego fixo para viver de consultoria, e me arriscar numa nova carreira. A grande verdade é que se dedicar em tempo integral à cria é sim uma atitude digna, mas não é de maneira alguma o mais fácil. Tem dias que tudo que eu queria era ter dinheiro pra contratar uma babá, e me livrar um pouco da dor nas costas de ficar com um bb de 7 kg no colo a maior parte do dia, ou dos calos nas mãos de tanto carregar bebê conforto pra lá e pra cá.

O que eu sinto nesse momento é uma incerteza, um anseio por dias mais calmos e serenos. Sinto medo pelas coisas que virão, pelo sustento que eu vou ter de prover, sem emprego fixo. Mas ao mesmo tempo, sinto uma energia e uma fé incríveis, uma sensação de que pelo simples fato de ser mãe e responsável por uma vida, eu vou conseguir.

Eu sei que um dia, lá na frente, tudo terá valido a pena e eu vou me orgulhar de ter sobrevivido. É o que me diz esse sorriso grande, gengivudo e amoroso ao extremo que João me abre a cada troca de olhar entre nós. <3